Esporte como instrumento de propaganda: ditaduras e a apropriação do futebol na América do Sul
João Pedro Pereira ![]() |
Jorge Rafael Videla, ditador argentino entre 1976 e 1981, em frente a taça conquistada por sua seleção em 1978 Foto: Alamy Stock Photo |
Diversos regimes ditatoriais buscaram meios de validar ou consolidar seu poder através da propaganda política, ao longo da história. Utilizada para ressignificar a imagem da repressão, essa ferramenta de poder se aproveita de diversas formas de abordagem, dentre elas, o cinema, literatura, TV e, é claro, o esporte.
Dentro dessa perspectiva, as competições internacionais foram, e ainda são, usadas dentro do campo político para acobertar atrocidades cometidas por governos ultra-nacionalistas. A Copa do Mundo de 1934, na Itália, e as Olimpíadas de Berlim em 1936, são exemplos disso. Mais recente, a Copa do Mundo de 2022, no Catar, também se enquadra nessa situação.
Observando o grande poder de influência que os esportes de massa contém, os opressores investem em se apoderar dos símbolos criados majoritariamente pela cultura popular. As ditaduras do chamado Cone Sul — implantadas durante um período em que uma onda de golpes, apoiados pelos Estados Unidos, tomou conta da América do Sul — investiram em controlar uma das maiores paixões do continente: a pelota. Na maioria dos casos, a seleção nacional, vinculada com a participação ou sediação de um grande evento, formaram as bases para a apaziguação do povo e validação de poder. Nesse contexto, é importante relembrar os momentos em que o futebol foi sequestrado para fins de controle e alienação.
Brasil e a Copa de 70
![]() |
Médici quebrando o protocolo e erguendo a taça da Copa em Brasília Foto:Acervo O Globo |
Em 1970, a ditadura brasileira se encontrava em seu sexto ano de repressão. O país sofria com o Ato Institucional Numero 5 (AI-5), decreto baixado dois anos antes que criminalizava manifestações de oposição ao regime e utilizou de tortura contra quem o fizesse. Assim, O Governo viu na Copa do México — a primeira transmitida pela TV no Brasil — a chance de fazer com que a população esquecesse do cenário interno e focasse na torcida por sua seleção.
Médici, presidente à época, foi descrito em biografias de ex-jogadores como alguém que demonstrava muito interesse pelo futebol, chegando a se comunicar com alguns integrantes do elenco. A interferência na Canarinho ficou clara poucos meses antes do mundial. O ditador queria a convocação do atacante Dario, o Dadá Maravilha, já João Saldanha, então técnico e comunista declarado, não concordava. Após alguns atritos com o elenco, e declarar que não queria a opinião do presidente na hora de formar seu time, foi demitido do cargo, sendo substituído por Zagallo, que acabou comandando uma das melhores seleções de todos os tempos para o tricampeonato ao ritmo de marchinhas criadas pelo regime.
A ditadura se aproveitou daquela conquista para vincular sua imagem à da seleção, visando trazer a popularidade da tricampeã para o regime militar e instigar um sentimento ufanista. Aproveitando-se do momento, o governo desviou atenção das barbaridades que ocorriam em prisões e quartéis, enquanto os jornais estampavam nas primeiras páginas imagens da consagração futebolística do país. Uma das fotos mais famosas das comemorações é de Médici levantando a taça ao lado dos jogadores.
![]() |
Aproveitando-se das comemorações, posa ao lado dos jogadores campeões. Na imagem, o capitão Carlos Alberto Torres.
Foto: Getty images |
Pode-se discutir os motivos pelos quais Saldanha foi demitido, mas, certamente, um comunista no comando da seleção durante a Copa do Mundo não seria bem visto pelo alto escalão militar.
Chile e o Estádio Nacional nas eliminatórias para a copa de 74
![]() |
Soldado chileno em frente a pessoas detidas nas arquibancadas do Estádio Nacional do Chile Foto: Reuters |
O ano de 1973 data o início da ditadura no Chile. Após um golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, no dia 11 de setembro, os militares assumiram o poder e Augusto Pinochet passou a comandar o país em uma das ditaduras mais sangrentas da história da América Latina. Entre 1973 e 1990, foram milhares de mortos, presos, torturados e exilados. Um dos palcos dessa barbárie foi o tradicional Estádio Nacional, em Santiago. O lugar onde o Brasil conquistou a Copa de 1962 foi convertido em um campo de concentração.
Com o país vivendo o início de um período de terror, no dia 26 de setembro, duas semanas após o golpe, a seleção chilena viajou para a Rússia para disputar uma vaga na Copa do Mundo de 1974 contra a União Soviética. Como a partida terminou em um zero a zero, um jogo de desempate deveria ser realizado, dessa vez em solo chileno. E o palco escolhido foi, justamente, o Estádio Nacional.
Os soviéticos se posicionaram contra a escolha do local, alegando o seu uso como prisão como justificativa. Após um comitê da FIFA, enviado para inspecionar o estádio, declarar as plenas condições para realização da partida — ainda que cerca de 7 mil pessoas se encontrassem detidas lá — o jogo acabou acontecendo, porém, com apenas uma equipe em campo. A União Soviética se recusou a viajar e o Chile venceu por 1 a 0, em uma partida que contou com apenas uma equipe em campo e encerrada com 30 segundos.
![]() |
Jogadores chilenos avançam em direção ao gol soviético vazio
Foto: BBC WORLD SERVICE
![]() |
'Camacho' Valdés marca o gol na simulação de partida que classificou o Chile à Copa de 74
Foto: BBC WORLD SERVICE |
Mesmo nessas condições bizarras, o regime golpista quis usar a classificação para o torneio mundial como uma chance de promover sua popularidade. Para isso, foi marcado um amistoso contra o famoso Santos de Pelé. Entretanto, as coisas não saíram exatamente como o esperado. Em Santiago, com um público de cerca de 20 mil pessoas — baixo, se considerarmos a capacidade do estádio para 80 mil — o Santos bateu a seleção chilena pelo humilhante placar de 5 a 0.
Argentina e a Copa de 78
Conquistar o maior torneio de futebol do planeta era o sonho propagandístico de qualquer ditadura na América Latina. O Brasil havia vencido em 70, provando os benefícios que a manipulação popular através do esporte poderia trazer para governos repressivos. Porém, oito anos mais tarde, a ditadura argentina conseguiu ir além, levantando a taça mais cobiçada do mundo em solo sulamericano. Em um momento extremamente sangrento, a ditadura de Jorge Rafael Videla teve uma grande oportunidade de pintar uma imagem positiva do país para o exterior: sediar a Copa do Mundo.
Quando tomaram o poder, em 1976, os militares passaram a controlar e censurar a imprensa. A programação das emissoras de TV passou a ser majoritariamente de conteúdos estatais. Porém, um tipo de conteúdo tinha mais liberdade: as partidas de futebol. Cientes da influência que o esporte possuía, o governo argentino se preparou para sediar um evento futebolístico de grande porte, objetivando se vender como uma nação moderna e harmoniosa.
Mas, com os olhos do mundo voltamos para o país, era impossível esconder a situação por completo, e, assim, foram formados movimentos internacionais que repudiavam a escolha da sede, como o COBA (Comitê de Boicote à Copa da Argentina), criado na França. Denunciando os crimes do regime e lutando pela mudança no local da sede, o grupo não conseguiu a adesão que esperava, mesmo entre argentinos integrantes de grupos de resistência à ditadura. A sede não mudou, a Argentina foi palco e o país conquistou seu primeiro Mundial. Porém, não sem polêmicas.
Em um dos episódios mais contestados da história das copas, os Hermanos precisavam vencer o Peru e contar com um tropeço da seleção brasileira diante da Polônia. Na verdade, outro caminho também era possível: independente do resultado da partida do Brasil, a Argentina poderia avançar se tivesse mais saldo de gols que os Tricampeões. As partidas eram organizadas no mesmo horário, para evitar favorecimentos, mas, no dia 21 de julho de 1978, o jogo entre brasileiros e poloneses foi transferido para a manhã. A canarinho venceu por 3 a 1. À tarde, já sabendo a quantidade mínima de gols que precisava, os argentinos aplicaram uma suspeita goleada de 6 a 0 na seleção peruana. As suspeitas aumentaram quando, algumas semanas depois, o governo argentino fez uma doação de 35 mil toneladas de trigo ao Peru.
![]() |
Folha destaca facilidade da Argentina na partida
Foto: Acervo Folha de São Paulo |
Com os olhos do mundo voltados para o país, no dia 25 de Junho de 78, a Argentina ergueu a taça da Copa no Estádio Monumental de Núñez, a poucos metros da ESMA (Escuela Superior de Mecánica de la Armada) — local que foi utilizado como campo de concentração durante os anos de governo ditatorial. O povo saiu às ruas para comemorar um triunfo que o regime rapidamente soube vincular à sua imagem.
Uruguai e o Mundialito de 80
![]() |
Militares uruguaios em tribunas durante a realização de uma partida da Copa de Oro. Foto: Getty images |
Em 1980, a Copa do Mundo comemorava seu quinquagésimo aniversário, e, nada mais simbólico que a realização de um torneio festivo com todas as seleções campeãs até ali. O local, é claro, deveria ser o Uruguai, afinal, foi onde se realizou a primeira edição da competição. No entanto, todos esses simbolismos parecem ficar de lado quando revisitamos esse capítulo da história. Em plena ditadura militar uruguaia, a festa era realmente apenas do futebol? Olhando para o contexto, fica nítido que a bola foi pensada em segundo plano.
Sétimo ano de ditadura, o país ainda vivia em instabilidade e o governo precisava se afirmar constantemente (como todo regime opressivo). Sendo assim, para tentar perpetuar de vez sua permanência no poder, foi proposto um plebiscito que alteraria a constituição em seu favor. Como o governo acreditava firmemente em uma resposta positiva por parte da população, o Mundialito veio em boa hora. A ideia era utilizar a competição como palco político para comemorar a legitimação popular. A votação aconteceu um mês antes da bola rolar, e para a surpresa dos militares, a população oprimida fez valer sua voz de protesto, com 57% dos votos contrários à reforma constitucional.
![]() |
Jornal uruguaio El Dia noticiando a derrota do plano dos militares.
Foto: Reprodução Twitter |
Tarde demais para o cancelamento, a competição aconteceu em solo uruguaio, e a anfitriã bateu o Brasil na final. Pôde-se notar, durante a realização do torneio, todas as características que podem o encaixar como uma mais uma ferramenta de propaganda política. Era inevitável que, naquele momento, com seleções de primeiro escalão se enfrentando, os militares não conseguissem pelo menos uma vitória temporária para sua imagem. Porém, em 10 de Janeiro de 81, dia da final, mais uma vez as massas se fizeram ouvir. Quando outro triunfo da ditadura parecia iminente, a arquibancada do Estádio Centenário, com mais de 70 mil pessoas, entoava um só canto: "Se va a acabar, se va a acabar, la dictadura militar".
Dois anos depois do episódio no Centenário, em 1983, a ditadura argentina teve fim. Quatro anos depois, em 1985, foi a vez do próprio Uruguai e do Brasil saírem de um dos seus períodos mais sombrios. No Chile, a coisa demorou um pouco mais, só em 1990 a nação pôde declarar o fim de sua opressão militar.
O futebol pode ser usado para fins nefastos, isso já ficou provado, mas sua essência é popular. Por isso, a preocupação dos governos em realizar esse sequestro do espetáculo. Sua utilização como plataforma para protestos populares também é enorme, não só dentro, mas também fora de campo. Na final do Mundialito de 80, feito para festejar a opressão, foi como se todos os povos sul-americanos se reunissem em uma só voz reivindicando o futebol e a democracia que são seus por direito.











Comentários
Postar um comentário